Pecuarista segura o boi, frigorífico força queda e arroba resiste nos R$ 350/@ em São Paulo

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Mesmo com escalas de abate mais confortáveis, consumo doméstico fraco e perda de ritmo das exportações, a falta de excesso de boiadas terminadas impede uma queda generalizada do boi gordo; enquanto isso, contratos futuros voltam a apontar preços acima de R$ 360/@ para a entressafra.

O mercado do boi gordo entrou em uma disputa cada vez mais clara entre frigoríficos e pecuaristas nesta reta final de agosto. De um lado, as indústrias aproveitam escalas de abate mais confortáveis e a fraqueza do mercado da carne para testar preços menores. Do outro, produtores resistem às ofertas, reduzem a disponibilidade de animais e evitam entregar boiadas nos valores propostos. O resultado, pelo menos por enquanto, é um mercado pressionado, mas sem a queda generalizada que poderia ser esperada diante do atual cenário de demanda. Em São Paulo, a Agrifatto apontou na quinta-feira (20) R$ 350 por arroba para o boi gordo, no prazo. Todas as praças acompanhadas pela consultoria apresentavam estabilidade naquele levantamento. A Scot Consultoria trabalhava com referência de R$ 347/@ para o boi comum e R$ 350/@ para o chamado boi-China, também considerando valores brutos e a prazo.

É justamente essa resistência próxima dos R$ 350 que transforma o momento atual em um verdadeiro braço de ferro pela formação do preço da arroba.

Frigoríficos têm escala, mas não encontram boiada sobrando

O principal argumento das indústrias está nas escalas. Segundo a Scot Consultoria, os frigoríficos paulistas trabalhavam com programações de abate formadas até o fim de agosto. Já a Agrifatto apontava escalas médias nacionais próximas de sete dias úteis, condição que permite às empresas comprarem com menos urgência e testarem valores abaixo das referências anteriores. A Safras & Mercado também identifica essa mudança na relação de forças. Segundo Fernando Henrique Iglesias, analista da consultoria, os frigoríficos de maior porte estão com escalas mais confortáveis ao longo de agosto, favorecidos inclusive pela entrada de animais provenientes de parcerias e de confinamentos próprios. O problema para a indústria é que escala confortável não significa, necessariamente, excesso de oferta. A Agrifatto observa que os pecuaristas vêm resistindo às propostas menores e dosando a disponibilidade de animais, comportamento que preserva parte do poder de negociação de quem ainda possui boiada terminada. Apesar dos recuos observados em algumas regiões nas últimas semanas, a consultoria não identifica, até agora, um movimento generalizado de queda. Essa é uma diferença importante: o frigorífico ganhou tempo para comprar, mas ainda não encontrou uma oferta abundante o suficiente para derrubar a arroba com facilidade.

Quanto vale o boi gordo nas principais praças?

Os levantamentos das consultorias apresentam diferenças metodológicas e, por isso, as referências não devem ser comparadas como se fossem exatamente o mesmo indicador. No levantamento da Agrifatto de 20 de agosto, São Paulo aparecia em R$ 350/@, Minas Gerais em R$ 340/@, Mato Grosso do Sul em R$ 345/@ e Mato Grosso em R$ 335/@. Já a Safras & Mercado calculou preços médios de R$ 342,92/@ em São Paulo, R$ 333,39/@ em Goiás, R$ 336,06/@ em Minas Gerais, R$ 337,16/@ em Mato Grosso do Sul e R$ 328,24/@ em Mato Grosso. Mais importante que uma referência isolada, portanto, é observar a direção do mercado: há pressão baixista, mas ainda existe resistência relevante por parte da oferta.

China virou o ponto mais sensível do mercado

A pressão sobre o boi gordo não nasce apenas dentro das porteiras. O mercado acompanha com atenção os efeitos da cota chinesa para a carne bovina brasileira. A China estabeleceu para o Brasil uma cota de 1,106 milhão de toneladas, sobre a qual incide a tarifa regular de importação de 12%. O volume que ultrapassa o limite fica sujeito à salvaguarda adicional de 55%. Dados recentes mostram que os efeitos já chegaram ao fluxo comercial. Na segunda semana de agosto, os embarques brasileiros de carne bovina ficaram em aproximadamente 8,4 mil toneladas por dia útil, contra 10,5 mil toneladas/dia na primeira semana. Na parcial mencionada, a média diária estava 26% abaixo de agosto de 2025. Para Safras & Mercado, a perda de ritmo das exportações soma-se ao consumo doméstico enfraquecido e ajuda a explicar a pressão atual sobre a arroba.

Carne cai no atacado e aumenta pressão sobre a arroba

Dentro do Brasil, a indústria também enfrenta dificuldade para repassar carne. Segundo Safras & Mercado, o mercado atacadista registrou novo recuo, com demanda enfraquecida e forte competição de proteínas mais baratas. O quarto traseiro caiu para R$ 26/kg, redução de R$ 1; o quarto dianteiro foi para R$ 20/kg, também R$ 1 abaixo; enquanto a ponta de agulha recuou para R$ 19/kg, perda de R$ 0,50. A Agrifatto também observa pouca movimentação no atacado paulista, com reposições reduzidas. A avaliação é de que o final do mês favorece a migração do consumidor para frango e carne suína, normalmente mais acessíveis. Esse talvez seja hoje o principal ponto contrário a uma recuperação imediata da arroba: se a carne não gira, o frigorífico não precisa acelerar suas compras de gado.

Mercado futuro, porém, conta outra história

Enquanto o físico enfrenta pressão, a curva futura voltou a chamar atenção. No fechamento de 19 de agosto, os contratos futuros do boi gordo na B3 terminaram em R$ 348,40/@ para agosto, R$ 355,75/@ para setembro, R$ 364,15/@ para outubro, R$ 367,40/@ para novembro e R$ 369,40/@ para dezembro. Janeiro de 2027 aparecia em R$ 374,50/@. Isso significa que, naquele fechamento, outubro carregava prêmio superior a R$ 15/@ sobre agosto, enquanto dezembro se aproximava novamente dos R$ 370. Além disso, o interesse pelo mercado futuro vem aumentando. Segundo levantamento do Farmnews com dados da B3, as posições em aberto chegaram a 66.951 contratos em 13 de agosto, completando a sexta semana consecutiva de crescimento. O futuro não é garantia de preço, evidentemente. Mas mostra que o mercado ainda enxerga possibilidade de valorização na entressafra, apesar da pressão observada no físico.

Oferta de confinamento será decisiva daqui para frente

Há outro componente que merece atenção do pecuarista: a entrada dos animais confinados. Em Mato Grosso, por exemplo, a expectativa é de 1,33 milhão de bovinos confinados em 2026, crescimento de 43% sobre 2025, segundo levantamento divulgado neste mês. Uma parcela importante desses animais deverá chegar aos frigoríficos justamente entre setembro e novembro. É nesse ponto que o mercado começa a desenhar uma equação particularmente interessante. Se a oferta de confinamento crescer mais rapidamente que a demanda, os frigoríficos poderão prolongar a pressão sobre as compras. Se, por outro lado, a disponibilidade de boiadas terminadas permanecer controlada e a demanda encontrar alguma recuperação, a sustentação observada no mercado futuro pode começar a aparecer também no físico.

Quem vai ceder primeiro?

A fotografia do mercado nesta reta final de agosto é bastante diferente de uma simples tendência de baixa. O frigorífico possui escala e não precisa disputar agressivamente a boiada. O pecuarista, por sua vez, não está colocando animais em excesso no mercado e resiste aos preços menores. Entre os dois está uma demanda doméstica enfraquecida e uma China comprando em ritmo menor. Por isso, os próximos movimentos dependerão menos de uma cotação isolada e mais de três variáveis: entrada efetiva do gado de confinamento, capacidade dos pecuaristas de continuar segurando a oferta e comportamento das vendas de carne, tanto no Brasil quanto no exterior. Por enquanto, a indústria pressiona, mas ainda encontra resistência. E o fato de São Paulo continuar trabalhando ao redor dos R$ 350/@ enquanto outubro supera R$ 364/@ na B3 mostra que o mercado não abandonou a possibilidade de preços melhores durante a entressafra.

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