Escrito por Compre Rural Notícias
Foto: Divulgação
Escalas de abate seguem enxutas, sustentam as cotações em diversas praças e alimentam expectativa de novas altas. No entanto, consultorias alertam que o ritmo das exportações para a China e a demanda doméstica serão decisivos para definir o comportamento do mercado do boi gordo nas próximas semanas.
A arroba do boi gordo encerrou a semana em recuperação em boa parte das principais regiões pecuárias do Brasil. Depois de um período de pressão por parte da indústria frigorífica, a combinação entre oferta restrita de animais terminados, escalas de abate mais curtas e maior necessidade de compra pelos frigoríficos voltou a dar sustentação aos preços. Apesar desse movimento positivo, o mercado ainda convive com importantes fatores de incerteza. Analistas consultados pelas principais consultorias do setor avaliam que a continuidade da valorização dependerá principalmente da capacidade da indústria de alongar suas escalas de abate, da reação do consumo interno e do desempenho das exportações, especialmente após o esgotamento antecipado da cota chinesa de embarques para 2026.
Oferta curta continua sendo o principal suporte da arroba do boi gordo
O fator que mais sustenta o mercado neste momento continua sendo a disponibilidade limitada de boiadas prontas para abate. Segundo levantamento da Scot Consultoria, a escassez de animais terminados permitiu novas valorizações em diversas praças, mesmo diante da tentativa dos frigoríficos de reduzir os preços pagos pela matéria-prima. Em São Paulo, por exemplo, o chamado “boi China” avançou para R$ 335 por arroba, enquanto o boi comum permaneceu negociado ao redor de R$ 332/@, ambos a prazo. Também houve reajustes em importantes regiões produtoras de Mato Grosso do Sul, Pará, Rondônia e Tocantins. Na avaliação dos analistas da Scot, a oferta continua suficientemente curta para impedir quedas mais expressivas das cotações, mesmo em um ambiente de comercialização relativamente lenta da carne bovina no mercado interno.
Escalas de abate seguem apertadas
Outro indicador acompanhado de perto pelo mercado são as programações de abate dos frigoríficos. Dados compilados pela Agrifatto mostram que a média nacional encerrou a semana em aproximadamente seis dias úteis, um dia abaixo do registrado na semana anterior. Estados como Pará e Mato Grosso do Sul seguem trabalhando com escalas consideradas curtas, enquanto Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais apresentam situação mais confortável, embora sem excesso de oferta. Historicamente, escalas menores aumentam a necessidade de compra por parte da indústria, fator que costuma favorecer a valorização da arroba.
Safras & Mercado: principal dúvida é se a alta terá força para continuar
Para o analista Fernando Henrique Iglesias, da Safras & Mercado, o movimento observado durante a semana demonstra uma postura mais ativa dos frigoríficos na compra de animais. A grande questão, segundo ele, é saber se essa demanda será suficiente para permitir o alongamento das escalas de abate nas próximas semanas. O cenário ganhou um novo componente após o esgotamento antecipado da cota chinesa de 1,1 milhão de toneladas destinada ao Brasil em 2026, o que reduziu parte do ímpeto das exportações para o principal comprador da carne bovina brasileira.
Scot vê espaço para preços maiores no segundo semestre
Embora o curto prazo ainda inspire cautela, a Scot Consultoria avalia que o cenário estrutural permanece positivo para a arroba.
O coordenador de inteligência de mercado da consultoria, Felipe Fabbri, afirma que um movimento mais consistente de valorização tende a ocorrer a partir de setembro, quando a indústria começará a se posicionar para atender a demanda da China em 2027. Além disso, outros mercados internacionais vêm ampliando as compras de carne bovina brasileira, ajudando a compensar parcialmente a redução temporária do apetite chinês. Entre os fatores considerados positivos, Fabbri destaca também a decisão dos Estados Unidos de não ampliar tarifas sobre a carne bovina brasileira, preservando um importante destino para as exportações nacionais.
Mercado futuro já precifica arroba próxima de R$ 370
A expectativa otimista também aparece na B3. Segundo levantamento citado pela Scot Consultoria, os contratos futuros indicam preços próximos de R$ 370 por arroba no último trimestre do ano, com o vencimento para janeiro de 2027 negociado em torno de R$ 369,50/@. Na avaliação da Agrifatto, os contratos futuros seguem demonstrando forte interesse comprador, reforçando a percepção de que o mercado acredita em manutenção da firmeza dos preços ao longo dos próximos meses.
Consumo interno ainda inspira cautela
Nem todos os indicadores, entretanto, apontam para um cenário totalmente positivo. A Safras & Mercado observa que o atacado começa a mostrar sinais mistos. O impacto da entrada dos salários tende a perder força ao longo da segunda quinzena do mês, reduzindo o ritmo das vendas no varejo. Ao mesmo tempo, a carne bovina enfrenta concorrência mais intensa das proteínas alternativas, especialmente do frango, que voltou a ganhar competitividade em algumas regiões.
Exportações seguem fortes
Mesmo com o desafio envolvendo a China, os embarques brasileiros continuam em ritmo elevado. Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) mostram que, até a segunda semana de julho, o Brasil havia exportado 104,6 mil toneladas de carne bovina, com faturamento de US$ 668,1 milhões. Na comparação com o mesmo período do ano passado, houve:
alta de 25% na receita média diária;
crescimento de 8,7% no volume médio embarcado;
valorização de 15% no preço médio da tonelada exportada.
O que esperar da arroba nas próximas semanas?
O mercado entra na reta final de julho sustentado principalmente pela baixa oferta de animais prontos para abate. Esse fator deve continuar limitando movimentos de queda e mantendo os frigoríficos ativos nas compras. Entretanto, a intensidade de uma nova rodada de valorização dependerá de uma combinação de fatores: comportamento das escalas de abate, reação do consumo interno, evolução das exportações após a limitação da cota chinesa e desempenho do mercado futuro. No momento, o consenso entre Scot Consultoria, Agrifatto e Safras & Mercado é de que os fundamentos seguem mais favoráveis para estabilidade com viés de alta do que para uma reversão consistente das cotações, embora a confirmação desse movimento dependa da dinâmica entre oferta e demanda nas próximas semanas.
Leia mais em: https://www.comprerural.com/arroba-do-boi-reage-com-oferta-curta-mas-mercado-faz-alerta-ate-quando-a-alta-vai-durar/