Por Lorenzo Junqueira, Pecuarista de corte e fundador da comunidade Balcão do Boi
A partir desta semana, o mercado da pecuária de corte entrou em uma nova fase de competitividade global. Recentemente, a China confirmou o esgotamento da cota de importação para a carne bovina da Austrália. Com isso, as exportações australianas para o mercado chinês passam a enfrentar uma tarifa adicional de 55%.
A notícia merece atenção especial dos pecuaristas brasileiros porque teremos o privilégio de observar, na prática, como a China e a Austrália irão se comportar após o preenchimento da cota. Muito provavelmente, o que acontecer agora com os australianos servirá como referência para o Brasil nos próximos meses.
A expectativa do mercado é que a China anuncie a qualquer momento o preenchimento de 80% da cota de importação da carne bovina brasileira. E essa simples declaração tem potencial para aumentar a pressão baixista sobre a arroba do boi gordo. Inclusive, esse movimento já começou nesta semana, com frigoríficos testando o mercado e realizando compras por preços menores.
Outro fato que chamou atenção foi o anúncio da JBS, que suspendeu a produção de cortes bovinos destinados ao mercado chinês em 18 das 34 plantas habilitadas para exportação à China. A decisão reforça a preocupação do setor com o avanço do preenchimento da cota e mostra que a indústria já começa a se posicionar diante desse novo cenário.
Mas nem tudo são más notícias. Se por um lado a pressão sobre a arroba tende a aumentar, por outro a reposição também deve sentir os efeitos desse movimento. A expectativa é de queda nos preços das categorias de reposição, podendo inclusive ocorrer uma redução do ágio atualmente praticado. Isso pode abrir uma excelente janela de investimento nos meses de julho e agosto para os pecuaristas que estiverem preparados para aproveitar as oportunidades.
Por isso, acredito que cautela e paciência serão fundamentais neste momento. Minha expectativa é de uma pressão de baixa sobre a arroba durante julho e agosto, seguida por um mercado mais estável em setembro. Já no último trimestre do ano, a tendência é de retomada da valorização.
O próprio mercado futuro sinaliza esse cenário. Atualmente, a diferença entre o contrato de julho de 2026 (BGIN26) e o contrato de dezembro de 2026 (BGIZ26) é de R$ 26,05 por arroba, mostrando que os agentes do mercado enxergam preços significativamente mais altos no final do ano.
Diante desse cenário, o pecuarista pode utilizar a pressão causada pelo preenchimento da cota chinesa e toda a volatilidade do mercado a seu favor. A janela que deve se abrir nos próximos meses pode representar uma das últimas boas oportunidades de compra de reposição para quem ainda deseja participar da fase mais forte de valorização do atual ciclo pecuário.
Por isso, apesar das turbulências de curto prazo, continuo otimista com os fundamentos do mercado. E sim, ainda acredito em uma arroba próxima de R$ 400 no final do ano. A China deve retornar com maior intensidade às compras em meados de novembro e, quando isso acontecer, voltará com muita fome da carne bovina brasileira. Para quem conseguir atravessar este período com estratégia e disciplina, os próximos meses podem trazer excelentes oportunidades.