Governo chama de ‘inaceitável’ exigência da UE sobre antimicrobianos

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Mensagem transmitida aos europeus é que o Brasil não vai aceitar ver seu sistema sanitário ser colocado em cheque — Foto Wenderson Araujo CNA

Ministério cobrou o retorno do Brasil à lista de países aptos a exportar para o bloco europeu.

O Ministério da Agricultura endureceu o tom com a União Europeia e chamou de “inaceitável” a exigência de uma comprovação prévia do controle de antimicrobianos no ciclo completo de vida dos animais cuja carne será exportada para lá. Em nota divulgada nesta quinta-feira (23/7), a Pasta cobrou o retorno à lista de países aptos a exportar para o bloco, independentemente de ter ou não produtos dentro das regras já em setembro, na interpretação de fontes do setor produtivo e industrial.

A Pasta disse que as relações sanitárias internacionais são baseadas em “confiança e transparência” sobre os sistemas oficiais de controle e criticou a exigência de “comprovação prévia” de medidas que ocorrem de forma progressiva ao longo dos ciclos produtivos dos animais.

Recentemente, o ministério adotou a fiscalização do ciclo completo de vida das diferentes cadeias produtivas sobre o uso de antimicrobianos. Para a pecuária bovina, por exemplo, a certificação do animal como livre dos insumos, proibidos na UE, pode demorar pelo menos dois anos. Na cadeia avícola, o modelo é mais rápido, de cerca de 40 dias.

“O Brasil defende a manutenção deste sistema e considera inaceitável a exigência de comprovação prévia da implementação integral de medidas cuja execução ocorre de forma progressiva ao longo dos ciclos produtivos”, acrescentou. “É precisamente a função dos sistemas oficiais de fiscalização e certificação assegurar que essa implementação seja verificada e que apenas produtos plenamente conformes sejam certificados para exportação“, completou.

“As relações sanitárias internacionais são estruturadas sobre um princípio fundamental: confiança e transparência entre autoridades competentes. O reconhecimento internacional dos sistemas oficiais de controle sanitário baseia-se na capacidade demonstrada pelo país de estabelecer normas, fiscalizar seu cumprimento, adotar medidas corretivas – quando necessárias – e certificar, com credibilidade, os produtos que cumprem os requisitos e as medidas acordados bilateralmente”, disse a Pasta.

Na nota, a Pasta informou que segue em tratativas técnicas com a UE sobre aos requisitos sanitários aplicáveis ao controle do uso de antimicrobianos na produção animal. Segundo a Pasta, o Brasil não pediu a flexibilização das normas sanitárias do bloco para manter suas exportações de carnes e derivados e reforçou o compromisso de atender integralmente os requisitos estabelecidos pelos mercados importadores.

Segundo interlocutores de frigoríficos e pecuaristas, a mensagem transmitida aos europeus é que o Brasil não vai aceitar ver seu sistema sanitário ser colocado em xeque nessa discussão. Os dois lados concordaram com a posição adotada pelo Ministério da Agricultura na nota.

“Independentemente se haverá animais prontos em 3 de setembro. O Brasil tem que permanecer na lista de exportadores, mesmo que demore ainda dois anos para ter animais prontos para exportação“, disse uma fonte da indústria.

“Endureceu o tom. É como se eles falassem aos europeus que não vamos aceitar eles colocarem o sistema brasileiro em cheque”, ponderou um pecuarista. Ambos concordaram que é necessário recolocar o Brasil na lista de fornecedores da UE imediatamente. “Outra coisa é o ciclo de produção e a disponibilidade de animais prontos para exportação“, completou uma das fontes.

Na nota, o Ministério da Agricultura disse ainda que a permanência na lista de países autorizados a exportar para a União Europeia não significa que todos os produtos estejam automaticamente aptos à exportação, mas que a “autoridade competente daquele país dispõe de um sistema oficial reconhecido e confiável, capaz de garantir que somente serão certificados os produtos que, no momento da exportação, atendam integralmente aos requisitos sanitários do mercado de destino”.

A Pasta afirmou que a “efetiva disponibilidade de produtos elegíveis pode variar de acordo com o ciclo produtivo e com o tempo necessário para que os animais e produtos cumpram integralmente os requisitos sanitários aplicáveis em cada cadeia produtiva, sem que isso represente ausência de garantias governamentais”.

O ministério defendeu que a “credibilidade do sistema reside justamente na capacidade da autoridade competente de impedir a certificação de produtos que ainda não atendam aos requisitos aplicáveis”. A Pasta comandada por André de Paula salientou ainda que as garantias governamentais apresentadas pelo Brasil “referem-se à confiabilidade do sistema oficial de fiscalização e certificação, ao passo que a disponibilidade de produtos elegíveis decorre da implementação dessas garantias ao longo dos respectivos ciclos produtivos, tratando-se de dimensões distintas e complementares do processo de atendimento aos requisitos sanitários”.

Em maio, a Comissão Europeia anunciou a retirada do Brasil da lista de países aptos a exportar carnes e derivados para o bloco europeu a partir de 3 de setembro por conta de falhas na comprovação do não uso de antimicrobianos nas cadeias produtivas brasileiras.

A indústria frigorífica pediu o banimento dos antimicrobianos no Brasil como sinalização aos europeus de que o país garantirá o fornecimento de carnes e derivados sem uso dos produtos. A proibição, no entanto, poderia aumentar os custos da cadeia pecuária com alimentação e medicamentos em torno de US$ 2 bilhões por ano, segundo cálculos do setor produtivo.

A UE importou 128 mil toneladas de carne bovina do Brasil em 2025, negócios que renderam US$ 1 bilhão aos frigoríficos brasileiros. Ao todo, o comércio de proteínas foi de US$ 1,8 bilhão.

“O Brasil não solicitou flexibilização das normas sanitárias europeias. O compromisso do Estado brasileiro sempre foi o de atender integralmente aos requisitos estabelecidos pelos mercados importadores, como faz há décadas”, disse o ministério, na nota.

O ministério afirmou que já apresentou à Comissão Europeia “documentação técnica robusta, detalhando os mecanismos oficiais de fiscalização e as garantias governamentais para cada uma das cadeias produtivas abrangidas pela regulamentação europeia, incluindo carne bovina, carne de aves, ovos, mel e produtos da pesca”.

Segundo a Pasta, a “documentação demonstra, de forma objetiva, como o sistema brasileiro assegura a verificação da implementação, a fiscalização, a rastreabilidade, o monitoramento e a certificação do atendimento aos requisitos sanitários estabelecidos pela União Europeia”.

Até o momento, no entanto, as autoridades europeias não apresentaram “manifestação conclusiva” acerca da documentação técnica encaminhada pelo governo brasileiro recentemente.

“O Brasil reafirma seu compromisso inequívoco com o atendimento integral dos requisitos sanitários da União Europeia e mantém contínuo diálogo técnico, com base na ciência, na transparência e na cooperação entre autoridades competentes, princípios que historicamente sustentam o comércio internacional de produtos agropecuários”, concluiu a Pasta (Globo Rural, 23/7/26)

Pecuaristas defendem restrições a antimicrobianos só para a Europa

Em reunião da câmara setorial, entidades concordaram que país deve buscar reabertura com adesão a Protocolo de Exportação criado pelo ministério.

Entidades da cadeia de pecuária bovina concordaram que o Brasil deve buscar a reabertura do mercado europeu por meio do cumprimento do Protocolo de Exportação de Bovinos Livres de Antimicrobianos, homologado pelo Ministério da Agricultura no início de junho.

O mecanismo é direcionado apenas a pecuaristas interessados em exportar ao bloco, sem gerar exigências adicionais aos demais criadores. O tema foi discutido em reunião extraordinária da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Carne Bovina nesta terça-feira (21/7) em Brasília. A posição será encaminhada ao ministro da Agricultura, André de Paula, para embasar as negociações do governo com as autoridades europeias. Uma nova reunião foi agendada para 18 de agosto, segundo o presidente da câmara setorial, André Bartocci.

Desde que a Comissão Europeia excluiu, em maio, o Brasil da lista de países autorizados a exportar produtos de origem animal ao bloco a partir de 3 de setembro, alegando falha do país em comprovar que segue as regras europeias sobre uso de antimicrobianos, indústria e pecuaristas vêm divergindo sobre a solução para o impasse.

As empresas propuseram a ampliação dos produtos vetados no país, enquanto pecuaristas defendem as restrições só para criadores que queiram fornecer animais para abate e posterior exportação da carne bovina ao bloco.

“É falta de bom senso suspender (antimicrobianos) no Brasil inteiro, a não ser que houvesse comprovação científica de que os produtos afetam a saúde”, disse Bartocci, em referência à preocupação dos europeus com um eventual aumento da resistência de bactérias às medicações. “Se deixarmos de usar algumas tecnologias, aumentam o risco de clostridioses [doenças causadas por bactérias], as emissões de gases de efeito estufa, porque aumentaria o tempo do animal no pasto”, afirmou à reportagem.

Durante a reunião, as entidades concordaram que mesmo a Europa sendo um mercado relativamente pequeno em comparação com as exportações totais, deve ser mantida. Isso porque, além de pagar mais pela carne, a Europa acaba sendo um “cartão de visitas” para o Brasil conseguir abrir outros mercados cobiçados, como Japão e Coreia do Sul.

O protocolo privado homologado pelo governo estabelece as regras para certificar a carne destinada à UE, que precisa ser proveniente de animais não tratados com antimicrobianos proibidos pelo bloco ao longo de toda sua vida.

Segundo uma fonte, 47 frigoríficos — quase todas as plantas habilitadas a exportar à UE —, além de 20 fazendas, de um total de 1,3 mil autorizadas hoje a exportar ao bloco, solicitaram adesão ao protocolo. Até então, essas propriedades não precisavam comprovar o não uso dos medicamentos em toda a vida do animal, que varia de dois a três anos. Daí a perspectiva de que o Brasil volte a exportar à UE só nesse prazo, se começar a certificar a produção agora.

As divergências na cadeia não foram totalmente dirimidas, disse outra fonte. Frigoríficos entendem que seria melhor banir o uso de antimicrobianos usados como promotores de crescimento no país. Argumentam, por exemplo, que outros compradores, como China e Coreia do Sul (fechada à carne do Brasil), baniram os produtos internamente, bem como concorrentes como Austrália e Nova Zelândia.

Já o presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan), Emílio Salani, disse estar confiante numa saída que não preveja a proibição total dos medicamentos no país. “A informação que temos é que a UE quer que o Brasil apresente um sistema de segregação viável, aprovado pelo Brasil e auditável”, afirmou.

Na semana passada, o presidente da confederação da agricultura (CNA), João Martins, levou a André de Paula dados de possíveis impactos na produção e sanidade brasileira com a eventual proibição dos antimicrobianos. Segundo fontes, ele insistiu na aplicação do protocolo para segregar animais que não recebem os produtos, e manutenção do uso em bovinos destinados a outros mercados.

André Bartocci disse ainda que a câmara setorial também deve pedir ao ministério a categorização dos ionóforos, antibióticos naturais usados como aditivos na alimentação, separando o que é usado como medicamento ou como promotor de crescimento. O mais usado é a monensina (Globo Rural, 23/7/26)

Fonte:https://www.comprerural.com/arroba-do-boi-gordo-dispara-45-na-ultima-semana-mas-mercado-faz-alerta/